4. INTERNACIONAL 18.9.13

1. CAMARADAS, ENCOLHI O OBAMA
2. FICOU TUDO NA MESMA
3. LUVAS DE COZINHA, MOS DE FERRO

1. CAMARADAS, ENCOLHI O OBAMA
Isolado em sua deciso de atacar a Sria, o presidente dos EUA agarrou-se a uma sada diplomtica orquestrada por Vladimir Putin, da Rssia, que aproveitou para tripudiar.
NATHALIA WATKINS

     O alvio que o presidente americano Barack Obama no conseguia esconder na semana passada por ter sido frustrado pelo presidente russo Vladimir Putin em sua tentativa de atacar a Sria tem uma raiz muito clara: a complexa arquitetura do conflito no pas rabe. Desde 2011, o ditador Bashar Assad, um membro da minoria religiosa alauita aliada dos cristos e drusos, combate os rebeldes pertencentes  maioria sunita, que tem forte influncia da Irmandade Muulmana, do Egito. Assad conta com o apoio externo dos xiitas do Ir e do Hezbollah, do Lbano. Os sunitas tm entre si os terroristas da Al Qaeda e extremistas salafistas, e recebem armas do Catar e da Arbia Saudita. Parece confuso? E , mesmo. Para interferir nessa intrincada rede de alianas pautadas por interesses geopolticos que se confundem com questes tnicas e religiosas, seria necessrio optar por um lado. Qualquer uma das alternativas, porm,  ruim, razo pela qual Barack Obama preferia no ter de atacar a Sria. Se prometia faz-lo, era apenas porque estabeleceu h um ano, de improviso, um limite para as atrocidades de Assad. O ditador no deveria usar armas qumicas. Se o fizesse, seria punido pelos Estados Unidos. Salvo a questo humanitria, de valor indiscutvel mas de soluo improvvel, os americanos s teriam a perder com um envolvimento militar na Sria. O Hezbollah se sentiria incentivado a retaliar Israel. O Ir se esforaria ainda mais para desestabilizar o Iraque. Sem contar as aes terroristas patrocinadas por xiitas iranianos e libaneses que certamente se seguiriam no restante do mundo. Ao bombardear as instalaes militares de Assad, Obama tambm acabaria por beneficiar os rebeldes e, por extenso, os terroristas da Al Qaeda. 
     Mesmo sabendo de tudo isso, Obama decidiu que um ataque militar  Sria era necessrio, ao ter a comprovao de que em 21 de agosto o governo de Assad lanou gases txicos em reas residenciais da periferia de Damasco, matando 1429 pessoas, das quais 426 eram crianas. A interveno militar passaria uma mensagem para o mundo  e para o Ir, que mantm um programa nuclear ilegal, em particular  de que a superpotncia no tolera o uso de armas de destruio em massa. O titubeante Obama, porm, no tem, para a empreitada, o apoio de alguns dos seus maiores aliados, como a Inglaterra, nem do Conselho de Segurana da ONU, no qual Rssia e China possuem poder de veto, tampouco da prpria populao americana. Por no querer assumir o risco sozinho, pretendia empurrar a responsabilidade para o Congresso, que na semana passada se preparava para votar contra ou a favor do ataque  Sria. Era quase certo que seria derrotado tambm nessa instncia quando o governo russo apareceu com uma proposta salvadora: Assad aceitava desfazer-se do seu arsenal qumico, com superviso da ONU. 
     O presidente americano estava to vido por ser tirado da armadilha montada por ele prprio que retrocedeu, sem nenhuma garantia concreta de que o plano de Putin vai ser levado a cabo. A prxima reunio para discutir o assunto est marcada apenas para o fim do ms, e a probabilidade de Assad entregar as armas  mnima. "Elas podem facilmente ser transportadas de um lugar a outro por caminhes, e mesmo hoje ningum sabe onde esto", diz Dan Kaszeta, especialista em armamentos qumicos formado pelo Exrcito americano. Ainda que houvesse boa vontade do governo srio, seria preciso acertar um cessar-fogo com os rebeldes para que os inspetores da ONU trabalhassem em segurana. 
     Enquanto Obama saa de fininho do episdio, diminuindo-se ainda mais como lder global, Putin aproveitou para dar lio de diplomacia. Em um artigo publicado no jornal The New York Times, o ex-agente da KGB colocou-se como defensor da paz e da democracia no mundo. "Ns temos de parar de usar a linguagem da fora", escreveu, numa referncia direta  poltica externa americana. Isso vindo de um governante que no deixa a oposio respirar e h apenas cinco anos mandou os seus tanques entrar na Gergia, um pas vizinho, para resolver uma questo separatista. Obama est mesmo em baixa. 


2. FICOU TUDO NA MESMA
Sobre como recolocar a pasta de dentes no tubo 

     Governos amigos sempre se espionaram, mas ter conscincia disso no reduz o mal-estar de quem se descobre alvo de vigilncia. Portanto, era esperado que a presidente Dilma Rousseff registrasse sua indignao pelas denncias de que a agncia de inteligncia dos Estados Unidos, a NSA, monitorou seus telefonemas, e-mails e mensagens de celular. Depois de se reunir com o colega americano Barack Obama durante a cpula do G20, na Rssia, e ouvir a promessa de explicaes, a presidente condicionou sua visita a Washington, em outubro, a uma resposta mais contundente. Conseguiu menos do que exigiu. 
     Na quarta-feira 11, a Casa Branca divulgou uma nota protocolar, prometendo limar os excessos das atividades de inteligncia. Espionar s para treinar, como foi o caso com Dilma, ento, estaria fora de cogitao. Exigir mais do que essa resposta e insistir na ameaa de colocar em ponto morto as relaes entre os dois pases no  do interesse do Brasil, alm de ser incuo. Afinal, como a prpria Dilma tentou dizer na Rssia, no h como desfazer a espionagem j feita: "Eu disse a Obama que era claro que ele sabia que, depois que a pasta de dentes sai do dentifrcio, ela dificilmente volta para dentro do dentifrcio. E ele me disse que faria todo o esforo poltico para que essa pasta pelo menos no ficasse solta por a e voltasse uma parte para dentro do dentifrcio". Dentifrcio e pasta de dentes so sinnimos. Involuntariamente. Dilma passou a mensagem realista de que tudo ficar como est. 
TATIANA GIANINI


3. LUVAS DE COZINHA, MOS DE FERRO
Com o seu jeito de dona de casa pacata, mas sem jamais perder a rdea curta, a chanceler Angela Merkel dever ganhar as eleies na Alemanha. A sua tarefa  mudar o que est dando certo para algo ainda melhor.
MRIO SABINO, DE PARIS

     Soa como nome de divindade nrdica, embora seja bem terreno. O Nullrunde, ou congelamento (dos salrios), foi uma das chaves para a Alemanha deixar de ser "o homem doente da Europa", l se vai uma dcada, quando o pas exibia uma taxa de desempregados s menor do que a das ex-comunistas Polnia e Eslovquia. Foi tambm uma das molas propulsoras da passagem da Alemanha  condio de "o homem mais saudvel do continente", capaz de atravessar a largas braadas o maremoto econmico que colheu a Zona do Euro e adjacncias, cinco anos atrs, do qual agora se enxerga um fiapo de arrefecimento. O Nullrunde esteve, ainda, direta ou indiretamente, nas discusses que precederam as eleies nacionais que ocorrem no prximo dia 22. O congelamento fortificante integrou um pacote de medidas adotadas em 2003, pelo governo de Gerhard Schroder, com o apoio de sindicatos e das empresas. 
     Sob o nome de Agenda 2010, aumentou-se a carga semanal de horas trabalhadas, aboliram-se leis que oneravam as contrataes, aprovou-se uma reforma gradativa na previdncia social que, ao cabo, far com que um alemo s se aposente a partir dos 67 anos de idade  e, para completar, extinguiu-se uma srie de feriados. Executado o choque de competitividade, no foi preciso esperar at 2010 para que a Alemanha retomasse a linha expressa da prosperidade. A Agenda foi obra de social-democratas e verdes, que chegam s eleies praticamente sem chance de vencer o pessoal liderado pela chanceler Angela Merkel. Ironia? No,  a poltica, seu ingnuo! 
     Ao contrrio do que ocorreu no Brasil, em relao ao Plano Real, na Alemanha a esquerda comeou a fazer o servio pesado, assumiu os nus  e a direita ganhou os louros com a sua continuao, graas em boa parte ao estilo de Angela Merkel. Se  verdade que "cada alemo s conhece a sua especialidade; quanto ao resto, deixa-o nas mos do governo" (a frase  do escritor e diplomara francs Jean Giraudoux, morto em 1944), ela  a comandante perfeita para os atuais anseios, um tanto comedidos, do seu povo. J definida como a personificao da "banalidade do bem", ela encarna mesmo  a "banalidade do banal". 
     Os seus discursos so ainda mais insossos do que os da mdia dos seus pares, bem de acordo com o slogan da sua atual campanha. "Juntos, com sucesso". No site que lanou em meados de agosto, ficamos sabendo que a especialidade culinria da chanceler  a sopa de batata que prepara para o seu marido picol de chuchu. A coisa de que mais gosta na Alemanha? As janelas acsticas. "No h ningum que saiba faz-las to boas e bonitas", elogiou. Contudo, dentro das luvas de cozinha, escondem-se mos de ferro, assim como h uma raposa por baixo dos conjuntos deselegantes. 
     No interior da Unio Democrata-Crist (CDU, na sigla original), diz-se que Angela Merkel sabe ouvir, sim, desde que a derradeira palavra seja sempre a sua. Uma personalidade contrastvel apenas quando interessa s-lo, e nunca em questes de fundo. No poder desde 2005, ela  difcil de marcar pela oposio, porque se desloca da direita para a esquerda, e vice-versa, sem nunca perder o centro. Veja-se o caso dos verdes. A chanceler, habilmente, depois do acidente em Fukushima, no Japo, apropriou-se da bandeira fundadora da agremiao: o fechamento das usinas nucleares. Por isso, a depender da qualidade do resultado no dia 22, ela poder unir-se a qualquer lado, excetuando-se extremidades, sem parecer que virou a casaca. 
     Anseios comedidos. A Alemanha  uma nao em que os cidados se dividem, na maioria, entre os mais ou menos contentes e os mais ou menos resignados com o servio continuado por Angela Merkel, da o seu favoritismo nas projees. Se a frmula est mantendo os alemes longe da turbulncia europeia, por que mudar tudo? Mas o fato  que mudanas se impem. A dependncia excessiva das exportaes expe a Alemanha aos ventos externos contrrios. O Nullrunde, e tudo o que cercou, garante e gera empregos  precrios e de baixssima remunerao, principalmente entre os jovens. Uma massa deles ganha 400 euros por ms. Os alemes no tm sade pblica, faltam creches e as aposentadorias podem ser baixas como as brasileiras. 
     Nessa Alemanha de salrios exguos e benefcios quase zerados, a fama negativa de Angela Merkel  ser benevolente demais com as naes mediterrneas em crise. Tanto que a plataforma de um novo partido  a volta do marco alemo, ou, no mximo, a criao de uma moeda nica para circular apenas entre os pases do norte. Bobagem. Em que pesem os defeitos da turma ali do sul, a chanceler sabe que o imenso xito da Alemanha nos ltimos anos se deve ao pilar euro. Ele ajudou a baratear as vendas para os pases vizinhos, que se endividaram tambm para consumir produtos made in Germany (da pauta constam pssimos enlatados policiais). 
     "Se perseguir polticas que enfraquecem a Europa, a Alemanha dar um tiro no p", resumiu a VEJA o professor Jorg Bibow, do Skidmore College, em Nova York. No adianta fechar as janelas acsticas para no ouvir o barulho aqui fora. Se permanecer no cargo, Angela Merkel ter de pactuar outra agenda, a fim de fortalecer o mercado interno, equilibrar a balana comercial com as naes europeias e, desse modo, reerguer o continente. Aes que vo alm das lies de austeridade. O clich reza que a Alemanha  grande para a Europa e pequena para o mundo. Mas a Alemanha s ser grande o suficiente para o mundo se a Europa no for pequena para ela. O Nullrunde no deve congelar as ideias indefinidamente. 

PAS RICO, DINHEIRO CURTO
Os salrios na Alemanha so, em mdia, mais baixos do que nos outros pases da Europa. Isso  fruto de um "acrdo", no incio da dcada passada, entre sindicatos, empresas e governo, para garantir empregos e aumentar a competitividade no mercado internacional.

Porcentagem de assalariados que ganham menos de 1000 euros por ms.
Alemanha 22%
Reino Unido 22%
Itlia 13%
Frana 6%
Zona do Euro 15%
Fonte: Eurostat (o nmero exclui estagirios)


